1. Jaqueline Santos Ferreira - Mãe de assistido

RELATO DE UMA GUERREIRA

Ela perdeu mais de 30 quilos para ter saúde e cuidar do filho, que tem câncer. Hoje é doadora de sangue e medula óssea e inspiração para quem busca saúde e bem estar. No dia internacional da mulher, conheça a história de Jaqueline dos Santos Ferreira. Quem conta é ela mesma, e com muito orgulho.

“Em janeiro de 2015 passei por um grande susto: uma forte dor no peito, que me fez parar no pronto socorro. Após alguns exames, um alerta de que para ver seu filho crescer eu precisaria lutar contra uma bomba relógio, isso porque eu estava com 94 quilos, mais de trinta acima do meu peso ideal, além de alteração em todos os exames, dentre eles colesterol, triglicérides e glicose, resultado de má alimentação e sedentarismo. 

A notícia assustou não só a mim, mas a toda minha família, especialmente meu esposo e meu filho, Kayo, de 09 anos. Para virar esse jogo, procurei um endocrinologista e dei início a uma vida diferente, regada à alimentação saudável e atividade física.

O que eu não imaginava é que três meses depois receberia outra notícia que tiraria meu chão: meu filho foi diagnosticado com câncer, aliás, um câncer raro. Em busca de tratamento, fomos para Montes Claros.

O primeiro sentimento que me veio foi de culpa. Desde antes de ele nascer, eu sempre tive minha vida voltada para o trabalho e para a faculdade de Geografia, que comecei a cursar quando estava grávida dele. Com a notícia do câncer, minha atitude foi largar tudo e me dedicar a ele. Além de me afastar do trabalho, praticamente mudei de cidade, pois no início do tratamento fiquei três meses sem voltar em casa. Tudo para ficar perto dele o tempo todo e, de certa forma, recompensar a minha ausência.

Em maio de 2015 cheguei à Fundação Sara, em Montes Claros, lugar que passou a ser minha segunda casa e meu porto seguro para enfrentar o desafio que a vida me apresentou. No dia que meu filho e eu chegamos na entidade estava acontecendo uma homenagem às mães, com fotos delas tiradas após um dia de beleza proporcionado por voluntários. Kayo olhou para mim e disse: queria que você estivesse como elas, alegre e bem arrumada. 

Aquilo me chocou muito. Eu me sentia culpada, achando que a doença dele era minha culpa. Para repor, eu sufocava meu filho. O que eu deixei de fazer ficando ausente, passei a dar em excesso. Para quem sempre trabalhou, sempre teve uma rotina de serviços domésticos e sala de aula, me senti uma inútil, por um lado, mas por outro, nunca estive tão presente como mãe. 

Percebendo minha superproteção com meu filho e meus constantes choros, a psicóloga da Fundação Sara me chamou para conversar e dizer que eu estava precisando de cuidado, que o Kayo precisava de mim forte ao lado dele e que protegê-lo demais durante o tratamento poderia trazer problemas para a formação dele.

Passei a lutar contra todo sentimento ruim e a entender que limite é necessário e que posso cuidar sem abrir mão de mim. Aprendi também que não tem como prevenir câncer infantil, mas que há grandes chances da doença passar, por isso, ao invés de sentir culpa, é melhor cuidar agora para que isso reflita hoje e no futuro dele.

Além de manter a dieta, voltei a fazer atividade física da forma como é possível: caminhada no próprio quintal ao redor da Fundação Sara, zumba dentro do quarto, aeróbica na escada, na rampa. Atividade física me ajuda a melhorar meu astral, me preenche, me dá uma sensação de prazer. 

Parei de me sentir culpada, de me sentir uma inútil, e passei a dar limite a meu filho, a controlar a situação, a dar espaço para ele crescer e desenvolver. E tudo isso sem deixar de cuidar de mim e dele. Com a convivência com outras pessoas na Fundação Sara, aprendi a ser mais humana, a enxergar o problema dos outros. Antes eu pensava que o mundo girava ao meu redor. 

Hoje peso 61 quilos, tenho uma saúde ótima, todos os meus exames são normais, sou doadora de sangue e medula óssea, coisas que jamais poderia fazer com a saúde que tinha há pouco mais de um ano. 

Na Fundação Sara a gente aprende que somos nada sozinhos. Eu tenho aprendido muito, especialmente com as mulheres, que são com as quais mais convivo. E ser mulher é isso: ter atitude, saber encontrar o equilíbrio da vida, mesmo quando ela está por um fio. Mas para conseguir isso é preciso cuidar de si, estar bem, com saúde e autoestima elevada. Meu sonho é ter meu filho curado e voltar para nossa rotina de vida em Taiobeiras, com muito amor, mas também sabendo dosar cada coisa.”

 




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